Manifesto: Trabalhe com o que ama e nunca mais...

Kássia Calonassi

Parte da vida adulta é perceber que deixou para trás coisas que fazia apenas para você. Vendeu o seu tempo, sua energia, sua criatividade. E criou para os outros, criou porque é preciso, criou na pressa. 

Até que um dia você se depara com um texto antigo — no meu caso, arquivos de infância esquecidos em um HD externo — e se pergunta: por que eu parei de escrever mesmo? 

Reescrevendo o ditado: Trabalhe com o que ama e nunca mais o faça apenas por amor. Acredito que isso se aplica, pelo menos, a nós escritores.

A verdade é que eu não parei de escrever um dia sequer nesses três anos. Talvez até tenha escrito demais (e-mails contam?). Mas não escrevi para mim. Não escrevi sobre o que eu queria, nem da forma que gostaria. 

E estar aqui novamente chega a me dar adrenalina. O ato de coragem de escrever sem saber para onde o texto vai. Sem objetivo, meta, pauta ou escopo.

Sendo justa, eu amei receber por escrever. Ter audiência. Reconhecimento. Sentir que o que eu escrevo tem valor. Mas a pegadinha está aí, porque dinheiro não é a única coisa que possui valor. 

Expressão tem valor.  Lazer tem valor. Poesia tem valor. 

E é por isso que eu decidi que precisava voltar a escrever só por escrever. Porque eu posso. Porque eu quero. E precisa de motivo maior?

Ainda hoje me lembro do meu primeiro dia de aula na faculdade de jornalismo. Durante a disciplina de Redação I, o professor — meu favorito do curso — falou: 

"Se você escolheu jornalismo porque os seus professores da escola elogiaram o seu texto falando sobre as suas férias, saiba que não é isso que estaremos escrevendo aqui"

Eu devo ter ficado com as bochechas vermelhas, porque aquele comentário serviu sob medida para mim. Eu amava escrever sobre as minhas férias. Viagens. Amigos. (Ex) Namorados. Histórias da vida. E, sim, recebia elogios. 

Mas a faculdade de jornalismo me ensinou muito além: apuração, metodologia, processo. E o mercado de trabalho, por sua vez, me ensinou que às vezes é preciso eliminar o "eu" do texto para se conectar com determinados públicos.

Não me leve a mal, esse não é um texto de repúdio aos jornalistas ou comunicadores em geral. Eu amo minha profissão. Mas é impossível negar: ela tirou, sim, um pouco da graça de escrever só por escrever.

Porque aí surgem as perguntas: 

— Por que fazer algo "de graça" se há quem pague por isso? 

— Por que gastar tempo com um blog com zero técnicas SEO que não vai rankear nas buscas do Google

— Não seria melhor encaixar mais um freela?

Escrever esse texto agora significa que eu deixei essas perguntas para trás. E, por mais sem pé nem cabeça que ele seja, significa o mundo para mim. 

Afinal, é o anúncio do meu comeback. E como amante de cultura pop, eu levo esse tipo de anúncio muito a sério. Eu também prometi à minha psicóloga que voltaria a escrever, então tem mais isso.

Não há nada melhor que uma página em branco, um café quente e o maravilhoso som de tec tec tec do teclado (sou a inimiga nº1 dos notebooks, eu digito com a força do ódio). Só de visualizar a cena começo a cantarolar um "I am unwritten, can't read my mind, I'm undefined". Sentiu a vibe anos 2000?

Fazer o que se ama é um ato de resistência. 

Fazer o que se ama é um ato de amor (o que é lógico, mas por vezes esquecemos).

Esse blog já foi um lugar onde expressei amor. Pelo jornalismo, pelo feminismo, pela cultura pop e por mim mesma. E, sendo bem sincera, não sei qual direção ele vai tomar agora. 

Mas não tem problema. O Mídias Agosto sempre foi sobre isso: existir "a gosto". Sem receita pronta.

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