Três anos atrás, eu perdi o meu melhor amigo, o cachorro da família que cresceu ao meu lado. De um ano para cá, a vontade de ter um “aumigão” novamente só aumentou, mas a realidade era outra: minha mãe não queria mais ter cachorro, e meus irmãos não moravam mais com a gente. Além disso, estávamos vendendo a casa, e logo o quintalzão viraria um apartamento.
O jeito foi esperar. Mesmo não podendo ter um cachorro para chamar de meu, comecei a ajudar ONGs e me envolver mais com a causa da adoção. Comecei a estudar mais, aprender mais, e perder aqueles medos de que vira-lata é violento, de que cão bonito é cão de raça, e que cães adultos não se adaptam. O meu primeiro cão era um labrador, comprado ainda filhote em uma feira, e, por mais que a gente jamais se arrependa de tê-lo em nossas vidas, hoje a mentalidade é outra.
Seguir ONGs no Instagram é uma forma de engajar na causa, mas confesso que também é uma tortura. Todo cão que aparecia no meu feed eu queria para mim. E falar sobre ter um cão tornou-se um assunto frequente em casa: “Mas você vai ter tempo de cuidar? E se você quiser viajar, quem vai cuidar? Vai ter que passear com ele todos os dias…” .
De fato, com a rotina de universidade e estágio, eu não tinha tanta certeza se daria conta de um animalzinho sozinha. Mas eu queria muito, e sempre acreditei que faria o meu melhor. Então, um belo dia, minha mãe foi vencida pelo cansaço. E a partir do momento em que ela me disse “sim”, comecei a procurar loucamente pelo meu futuro filho ou filha.
E aconteceu. Surgiu no meu feed uma cachorrinha de 7kg, um tamanho ótimo para apartamento. E, depois de muita insistência, convenci o meu irmão a me levar em outra cidade para conhecê-la. Fomos na ONG Focinhos Curitiba, há uns 38km do Parque Barigui. No entanto, vimos a cachorrinha nos primeiros minutos de visita, e ela não gostou muito de nós.
Conhecemos os outros cães da ONG, e um logo veio pedir carinho, meio tímido. Minha mãe bateu o olho e disse: “nossa, tão bonzinho, ele é um Benzinho”. Ben não tinha nome ainda, e estava há duas semanas na ONG, apenas. Ele tem dois anos, e morava num clube, com os irmãos, no frio e comendo o que encontrava por aí. Estava bem abaixo do peso esperado.
Depois de muita indecisão (eram muitos cães), decidi levar o “Benzinho”. E esse poderia ser o fim da história, o “felizes para sempre”. Mas adotar não é fácil assim. Na primeira noite, Ben se encolheu na cama e não saiu de lá em momento algum. Quando mexíamos com ele, ele se encolhia de medo.
Colocar a coleira era um parto, ele morria de medo e só passeava arrastando. Afinal, ele era um cão selvagem, livre, nunca tinha usado coleira antes. Ainda estávamos morando em casa, mas faltava apenas uma semana para a vida de apartamento. Como morar em um apartamento com um cão que não caminha?
Nos primeiros dias ele não comeu, não fez xixi, não fez cocô, e eu passava o dia todo preocupada com ele. A “solução” que encontramos foi soltá-lo no quintal, pois solto ele fazia as necessidades. Soltar e ficar de olho, pois o sapequinha tentava fugir sempre que podia. Com a mudança iminente, essa solução era temporária, e todo dia eu colocava a coleira nele, o enchia de petisco e tentava dar uma andadinha.
Logo ele começou a deixar a gente fazer carinho, mas em seguida ficou amuado e não queria comer nada. Descobrimos que o Ben estava com vermes. E para dar remédio para o cão? Ou ele separava a comida do remédio, ou simplesmente não comia… De bobo não tem nada. Outro remédio que precisávamos dar era um de gotas para pingar na orelhinha dele. Ele fugia em disparada e se escondia em qualquer canto.
Dois dias antes de nos mudarmos para o apartamento, achei que não conseguiria. Que seria impossível dar conta do cão. Mas nada nessa vida é por acaso. Quando levei ele para o passeio noturno forçado, ele fez as necessidades. Eu nem conseguia acreditar.
Quando nos mudamos, Ben entrou no apartamento como se fosse dele e de cara se sentiu à vontade. Todo o estresse da primeira semana foi passando, à medida que ele começou a amar passeios e tornou-se bem mais carinhoso.
Claro, se passaram três semanas, e ainda é cedo. Ben nunca teve humanos à sua volta. Ele se assusta facilmente com barulhos e movimentos bruscos, ainda não sabe brincar, morre de medo da bolinha. Ele não atende às minhas expectativas de um cão perfeito. Mas essa é a graça da coisa.
Adotar um cão é adotar uma caixinha de surpresas. Eu não sei o que ele passou e não sei como ele será daqui a um mês ou um ano. Com tudo que ele aprendeu em tão pouco tempo, tenho certeza que ele aprenderá muito mais. E eu terei o privilégio de acompanhá-lo, no ritmo dele.
Acontece que você não compra um amigo, e tampouco pega um na ONG. A amizade requer confiança, e eu devo esperar ele confiar em mim. E tampouco eu estou sozinha nessa caminhada. Pude contar com voluntários da ONG, entre adestradores, veterinários e pessoas que também passaram por isso. Pude contar com o Gabriel, meu namorado, que se tornou um paizão da noite para o dia.
O Ben já é muito amado (e mimado), ele tem tios, avós, e até um priminho com quem não se entendeu muito bem ainda. Agora, parece que ele sempre esteve aqui. Eu tive medo, pensei em desistir, pensei em devolvê-lo. Ninguém é forte e corajoso o tempo todo. Mas o Ben me mostrou que só faltava eu botar mais fé nele. Confiar nele. Para ele poder confiar em mim também.



Que texto mais lindo, adotei a Amora ano passado, irmãzinha da Gaia, minhas duas nenês. Amora era completamente assustada, foi abandonada junto com duas irmãs e a mãezinha dela, as três tiveram os rabinhos cortados. Dá para entender o medo. Nos primeiros dias ela não saia da parte de baixo da cama, só comia se a ração estava perto dela, tinha muito medo para fazer xixi, fazia onde tava e não levantava. Também pensamos que não daria certo. Mas todo dia tem uma melhora, agora ela corre pelo apartamento, dorme abraçada com meu namorado, antes ela tinha muito medo dele. Também aprendeu a passear, a usar o tapetinho, aprendeu a ganhar carinho sem recuar.
ResponderExcluirQuando passeamos em algum parque ela ainda sente medo quando passa algum homem falando um pouco mais alto, ou quando fazemos movimentos muito bruscos.
Mães de aumigos adotados, muito trabalho, mas é lindo ver eles conseguindo ter confiança!!