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| Imagem: The New York Times/ Reprodução |
Um documentário produzido pelo The New York Times, tratando sobre a ascensão e decadência da princesa do pop prometia muito. E entregou. Não é um filme sobre a comida favorita dela ou como ela escreveu suas músicas. É um conteúdo jornalístico e documental que reflete sobre o que aconteceu com a cantora.
Em um primeiro momento, é mostrada a perseguição sofrida pela cantora: além de centenas de paparazzis na sua cola o dia todo, as revistas e programas de TV transformavam a vida dela em escândalo. Em um segundo momento, é decidido na Justiça que o pai da popstar, não presente ao longo da vida dela, seria seu tutor legal, tornando-se dono das decisões de carreira e dinheiro de Britney.
Essa medida é comum para idosos e pessoas com deficiências mentais, que são um risco a si mesmas. Mas será que se aplica a uma mulher produtiva e sã em seus plenos 39 anos de idade? Ainda mais, será que ela concorda com isso? Os participantes do movimento #FreeBritney acreditam que não.
No momento, o conteúdo está disponível no streaming Globoplay (e em canais alternativos...).
Perseguição midiática e culpabilização da mulher
“Framing: Britney Spears” mostra não só o que Britney passou por ser famosa, mas o que passou por ser uma mulher famosa. Uma das entrevistadas comenta “era o momento das boy bands, mulheres não vendiam discos, e Britney mudou isso”. Infelizmente, toda a evolução que ela representa para a indústria musical veio com um preço caríssimo para ela.
Estamos “acostumados” a ver mulheres sendo criticadas pelo o que vestem. Agora, uma política americana afirmar publicamente que gostaria que Britney morresse pela influência que ela tem sobre seus filhos? Isso não é normal. Nesse momento, além das roupas, a cantora era considerada uma pessoa horrível por ter machucado o pobrezinho do Justin Timberlake (versão dele mesmo da história).
Traindo ou não, por mais que isso fosse pauta de revista, seria motivo para odiar alguém? Britney foi julgada de todo modo possível por causa desse relacionamento e outros que seguiram, algo que continuou acontecendo nas próximas décadas com Beyoncé e Taylor Swift, por exemplo.
Beyoncé é mais julgada por ter perdoado o marido traidor do que o marido é julgado por ter traído. Taylor é o motivo pelo qual vários relacionamentos dela acabaram, tudo culpa dela. Umas coisas que não fazem sentido nenhum. Outro convidado do documentário fala: “o machismo tem infraestrutura para acontecer”. Era machismo estampado nas capas - e poucos achavam isso ruim.
Uma foto de capa de revista custou a guarda dos filhos da cantora. Enquanto isso, a imprensa fazia milhões às custas do sofrimento de Britney. Acredito que pessoas que trabalham com comunicação têm no documentário uma aula sobre erros da cobertura midiática no passado que não devemos repetir.
Saúde mental
A decadência da cantora foi marcada por “surtos”, taxação de louca e especulação. Ninguém notou que ela estava sofrendo, que precisava de ajuda. Ninguém falava sobre saúde mental, e, se falassem, teriam interpretado vários episódios de outra forma. É a discussão que o documentário traz.
Talvez ela não seja insana, talvez ela não seja incapaz como o pai alega. Talvez Britney estivesse apenas sofrendo. E o recorte feito defende a cantora, não porque ela é perfeita, mas porque nem a ascensão nem a decadência são coincidências, acasos. São construções midiáticas e econômicas.
Movimento #FreeBritney
Algum dos entrevistados para o documentário comentou que Britney fez sucesso e chamou atenção quando todos os tabloides estavam ocupados com o caso do presidente Bill Clinton com a secretária. Curiosamente, o documentário foi construído em 2020 e lançado em 2021, momento em que a mídia estava ocupada com a pandemia.
Parece estranho como uma cantora que não está mais em seu auge consegue criar um movimento espontâneo, “sem querer”. É uma legião de fãs organizando-se por conta própria sem saber se a cantora concorda com isso de fato. E, depois de assistir, fica a dúvida, será que eles estão certos?
Um caso judicial no qual a acusação e a defesa são bancados pela mesma pessoa. Britney apelando contra a tutoria do pai, que é o dono de sua carreira e seu dinheiro há 11 anos. É no mínimo estranho. Não vou falar mais nada, você tem que assistir e tomar as suas próprias conclusões.




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