O que achamos de Falcão e o Soldado Invernal

Imagem: Disney +/ Reprodução

Depois do sucesso de WandaVision, que eu adorei, decidi dar uma chance para Falcão e Soldado Invernal, a nova série do Universo Marvel. Para essa resenha eu convidei quem assistiu a série comigo, o Gabriel Tassi, até porque, se não fosse por ele, eu não teria entendido nada da trama.

Para quem ainda não assistiu, essa é a minha primeira recomendação: reveja os filmes relacionados. Se você tiver a memória do Gabriel, isso não será necessário, mas se você é que nem eu e não lembra dos personagens secundários de filme de 2014, é melhor reassistir: Capitão América 2: Soldado Invernal e Capitão América 3: Guerra Civil

Vale a pena assistir? Vale! Assim como WandaVision, essa série mostra a evolução de personagens que não recebem tanto tempo de tela nos filmes da Marvel, e é importante para entender os filmes que virão na sequência. Se você gosta de super-heróis, ação e um roteiro mais elaborado, essa série é para você.

Lembrando que a série é curtinha, com apenas 6 episódios, e está disponível no streaming Disney +. Logo que a série acabou, foi confirmado o filme “Capitão América 4”, dando continuidade à trama, agora no cinema. Agora, vamos à resenha, livre de spoilers!

Dupla improvável (sem spoiler)

Os protagonistas da série não são amigos, nem inimigos e têm pouco em comum. A única ligação entre os dois é a amizade que tinham com Steve Rogers, o desaparecido Capitão América. Essa relação causa estranheza nos primeiros dois episódios, os diálogos deles não tem muita química e parecem existir por pura obrigação.


Foto: Falcão e Soldado Ivernal/ Reprodução


Também vale dizer que o Anthony Mackie (Falcão Negro) roubou o protagonismo sem dó, desde o primeiro episódio, e não devolveu mais. O Soldado Invernal é coadjuvante da sua própria série e sua função é limitada em introduzir outros personagens para a série, como as mulheres de Wakanda, e render cenas tristes. 

Um personagem essencial para a trama foi o Barão Zemo, interpretado por Daniel Bruhl (de O Alienista), um personagem muito peculiar e interessante. Confesso que eu não lembrava mais quem ele era, mas, depois de vê-lo na série, fiquei curiosa para rever sua aparição no universo Marvel.

Já a Sharon Carter deveria ser o equilíbrio em uma série protagonizada por dois homens, cujos coadjuvantes (como o Barão Zemo e o novo Capitão América) também são homens. Porém, o roteiro lançou a personagem nas cenas, sem ter motivo para ela estar lá (o que foi parcialmente consertado no último episódio).

E o que falar sobre o novo Capitão América? O personagem tem uma inspiração em The Boys, série da Amazon Prime que mostra os heróis como pessoas corruptas, com interesses puramente comerciais. Talvez seja a parte mais realística da trama: governo tratando o Capitão América como mercadoria. 

E, falando em governo, o maior acerto da série, para mim, é explicar o que aconteceu quando metade da população voltou à vida. No cinema, vimos toda a luta contra Thanos, mas vimos pouco sobre como o mundo lidou com isso. Em WandaVision, a Marvel nos mostra a loucura psicológica após o Blip, e em Falcão e o Soldado Invernal, as consequências políticas desse acontecimento. 

Sem mais delongas, vou passar a bola para o escritor e jornalista Gabriel Tassi. Quem quiser acompanhar mais sobre o trabalho dele como escritor de ficção, com dois livros publicados, e como setorista de futebol no portal Esporte News Mundo, pode segui-lo no Twitter @tassi_lara e no Instagram @gabriel_tassi. 

Drama e ação (sem spoiler)

Quando assisti aos primeiros episódios de Falcão e o Soldado Invernal, identifiquei uma série de clichês que poderiam facilmente arruinar a trama: dois brucutus atrapalhados são obrigados a trabalhar juntos, John Walker (o novo Capitão América) é o vilão óbvio, Sharon Carter incluída de forma forçada só para ter uma presença feminina no trio, etc. Ironicamente, todos esses clichês ficaram no ‘quase’ e ganharam uma profundidade  surpreendente.

Não vou justificar como cada elemento se desenrola para não estragar a experiência de quem não viu, e destaco que a execução não é perfeita, mas o roteiro acerta no tom em quase todos os momentos, e quando erra trata de consertar logo em seguida. Como exemplo: a conversa de Sam e Bucky numa sessão com a psicóloga, esse momento é o suprassumo dos “buddy cops”, e fica forçado e sem graça, mas o roteiro compensa encaixando um papo importante sobre o legado do escudo e a difícil aceitação de Bucky. 

E o maior acerto da série está aí: nos dramas e no desenvolvimento dos personagens. Não consigo identificar um personagem mal desenvolvido, com exceção de Sharon Carter, que ganha um desconto pelos eventos do último episódio, e Barão Zemo, que se difere demais do vilão apresentado em Guerra Civil.

De resto, Sam ganha uma história de origem e sofrimentos muito verossímeis para o contexto; Bucky sofre com os traumas do passado  — embora a trama deixe esse elemento em off até o último episódio, o roteiro segue lembrando o espectador com os diálogos envolvendo Zemo  —, Karli Morghentau (a "vilã" da série) carrega uma bandeira muito coerente e um discurso necessário para aquele universo, e tem um espírito de ativista que até gera identificação em certos momentos; e por último, o que para mim foi o maior acerto da produção: John Walker.


Foto: Falcão e o Soldado Invernal/ Reprodução


A princípio, a narrativa dá a ideia de que o novo Capitão América será um vilão, e constrói os episódios para que os espectadores não gostem dele. Com o passar dos episódios, ele tarda a cometer qualquer ato que seja facilmente odiável e se torna uma criatura complexa e muito real. Não é muito gostável, confesso, mas é talvez o personagem mais real que a Marvel já apresentou. O cara é gente como a gente e ganha o fardo pesadíssimo de ser o novo Capitão. É explosivo, com traumas e um narcisismo gritante, mas não chega a ser um vilão. Fico ansioso para descobrir como ele será aproveitado no futuro, e torço para que não perca a profundidade bem explorada até aqui.

Mas a produção se propõe a ser uma série de ação, e recheia toda essa mistureba de Apátridas, legado do escudo, traumas do Bucky e origem de Sam com muita pancadaria. Acerta às vezes, com momentos inspirados e porradas bonitas, mas a ação acelera a trama, a montagem deixa cenas confusas, e a geografia da luta fica quebrada e complexa demais. A ação, no geral, não é ruim, mas foi o que mais desapontou.

Mesmo assim, a produção é boa, traz à tona muitos debates importantes e não deixa a energia cair com os erros narrativos. Acredito ser o maior acerto da Disney+ até aqui e deixa ganchos muito bons para produções futuras.

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