Crônica: O medo de ligar para a pizzaria


Eu vejo a cena como se fosse ontem: minha mãe decidia pedir pizza e insistia para que meus irmãos e eu ligássemos. Nós fazíamos jogos para decidir quem iria ligar, e, dependendo do dia, acabávamos sem pizza porque ninguém teve a coragem. Tão grande o medo de falar com o (a) atendente e se embananar com as informações.

Eu não tinha saudosismo algum em relação ao telefone, nem das horas que passava fofocando com as amigas, nem das longas ligações com o meu primeiro namoradinho. Nada que o celular não possibilite, certo? Só fui pensar nisso no meu segundo dia no trabalho. 

Uma das minhas primeiras tarefas no emprego era “ligar para jornalistas de diversos portais do país e convencê-los a falar com você”. A espertona logo pensou: vou lá fora ligar. Mas o telefone fixo não funciona lá fora. Tinha que ser no escritório mesmo, ao vivasso para todos os funcionários.

Peguei o telefone e comecei a suar frio. Uma ansiedade que nem Whatsapp nem e-mail me dão, por mais que eu reescreva a mensagem mil vezes. No telefone, não tem reescrever. Sem segundas chances. E, nesse caso, a ligação era muito mais pública do que qualquer SMS, todo mundo estava ouvindo. 

Liguei, me embananei, respirei fundo, liguei de novo. Não foi um sucesso total, mas foi treino, e sei que a próxima será melhor. Demorou todos esses anos para eu entender porque a minha mãe nunca ligava, porque ela dizia “se você quer pizza, ligue”.

A coragem de ligar ou de atender ao telefone foi a mesma coragem que eu usei para pedir reembolso do cinema no dia que o filme travou e a mesma coragem de não aceitar o pedido que veio errado. Parece bobeira, mas telefonar gera desenvoltura para lidar com situações urgentes e imprevisíveis. 

Fico triste pensando que as novas gerações de Whatsapp e Ifood não vão saber o que é isso. Com certeza aprenderão de outras formas, mas não será algo tão lúdico quanto brigar com os irmãos para decidir quem vai fazer o pedido.

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