“Moxie: Quando as garotas vão à luta” celebra todas as mulheres e surpreende

Não criei muita expectativa para “Moxie” esperava um filme adolescente sessão da tarde. Depois me encantei com o filme e estou pronta para rasgar seda (e apontar defeitos, mas, em geral, rasgar seda). 


Foto: Netflix US/ Instagram

A história acompanha Vivian, a “garota tímida” da escola, cuja mãe, Lisa, foi uma jovem rebelde e revolucionária. Inspirada pela mãe e pela aluna nova que chega à escola, Lucy (a verdadeira protagonista), ela decide começar um movimento, o “Moxie”, para protestar contra as  injustiças que as garotas sofriam na escola.

Filmes como “Easy A”, com a Emma Stone, e “Radio Rebel”, com a Debby Ryan, fizeram muito sucesso com a pegada adolescente contra injustiças e estereótipos. Moxie, no entanto, trouxe uma história mais madura, na qual o poder está no coletivo, e não apenas na protagonista, além de apresentar mulheres muito diferentes protestando juntas. 

Acredito que a atenção dada a Vivian é o maior erro da trama. Nada contra ela, mas em um filme com Lucy, Kiera, Claudia, Amaya e CJ para quem foi o protagonismo? Para a garota branca. Várias mulheres disputam o tempo de tela, e, infelizmente, personagens promissoras não tiveram espaço para contar as suas histórias. 

De todo modo, o filme é ótimo e foi lançado em um momento promissor, na semana do Dia da Mulher. Apesar de não dar tempo de explorar muita coisa em 1h50min, o filme mostrou a realidade do assédio, dos tratamentos desiguais e do sexismo, além do descaso do colégio em solucionar esses problemas. Eu recomendo.

A maior lição do filme é a fala de Lisa, interpretada por Amy Poehler, que também dirige o filme. Quando Vivian pergunta para a mãe como ela sabia o que fazer quando era mais jovem, Lisa responde: “A gente não sabia. A gente errou muito. Mas não dava para não fazer nada.” Algo a se pensar sobre o momento em que vivemos.


SPOILER ALERT

Tudo se encaixa

Apesar do filme ter os seus exageros, como qualquer trama adolescente, a maior parte dos protestos são bem coerentes. Por mais que seja utópico, todo mundo participa sem nem saber quem está por trás, as ideias são boas, principalmente a da revistinha/ panfleto que Vivian faz. Uma pena que não havia espaço para outras escreverem além de Vivian.

Imagem: Netflix/ Reprodução

Eu gosto que o filme defende a coletividade como solução, “a união faz a força”. Ainda assim, para não ter que punir ou expulsar várias alunas, a diretora simplesmente fingiu que não viu os protestos. A coletividade faz a força, mas raramente garante impunidade. 

Também gosto que nem tudo dê certo. A derrota de Kiera para a bolsa esportiva mostra que a luta não traz resultados imediatos. As coisas não mudam do dia para a noite. E isso é frustrante, tão frustrante que a Vivian começa a fazer um monte de burrada e a história fica chata por algumas cenas. É chato mesmo. É insuportável.

Os erros de Vivian condizem com a idade dela e a situação em que ela estava. Pode desagradar o público, que fica de saco cheio com a garota, mas, de certa forma, é realista. Quem nunca descontou as frustrações em outra pessoa, principalmente na adolescência?

Algumas coisas do filme são muito interessantes, e praticamente imperceptíveis na primeira vez que você assiste. Por exemplo, Claudia, a melhor amiga de Vivian que, no começo, não parece interessada em se unir ao movimento. Acredito que muita gente (eu com certeza) julgou a garota antes de ver o lado dela. A própria Vivian sabia da situação dela, e mesmo assim a julgou quando Claudia não foi de regata para a escola. 

Outra personagem que surpreendeu foi Emma, vivida por Josephine Langford, atriz de "After" e irmã de Katherine Langford, estrela de "13 Reasons Why". Na primeira cena em que aparece, ela está exibindo as unhas, vestida de líder de torcida, e logo temos a impressão que ela será uma garota fútil e malvada, coisas que ela não é.

Na cena em que Mitchell vai discursar no jornal da escola, ele coloca a mão no ombro dela para que ela ceda a cadeira e ela sai super assustada, o que é explicado depois, quando revelam que ela foi estuprada por ele. 


Imagem: Reprodução/ Netflix


Desde a primeira cena, na qual Claudia diz “Emma será eleita a mais pegável de novo” (tradução brasileira, por que em inglês é na verdade “a mais comível” mesmo), como se isso fosse algo bom, a história se encaminha para esse final.

Lucy tenta várias vezes denunciar Mitchell e fala para a Vivian “às vezes ser um idiota é sinal de algo pior”. Não, ele não é só um cara irritante, ele é violento. Depois, tem a cena de Emma escutando a reunião delas no banheiro, e não sabemos o que Emma quer, se ela vai entregar o grupo, e, no fim, ela só estava procurando ajuda.

São esses detalhes, essa composição, que faz de Moxie não só uma história adolescente, mas uma trama que tem muito a ensinar. O filme mostra um feminismo que engloba todas as mulheres, defende que cada uma tem a sua forma de se manifestar, e, por fim, reforça que não dá para simplesmente  não fazer nada. Tornou-se um dos meus filmes favoritos.


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