Mulheres da ficção
Todas as mulheres e séries abaixo foram resenhadas aqui no blog e ficam de recomendação do Dia da Mulher. Essas mulheres não são reais, mas as suas histórias espelham o que as mulheres enfrentam diariamente.
Ser mulher é ser negada da educação sexual e do direito ao seu próprio corpo, como vemos em Daphne (Bridgerton);
É encenar o papel que os homens querem ver, como Beth Ann (Por que as mulheres matam);
É competir com outras mulheres, mesmo sem querer, como Lara Jean (Para todos os garotos que já amei);
É ser tachada de mandona por dar ordens em sua própria casa e em seu trabalho, como Taylor (Por que as mulheres matam);
É salvar o dia de novo e de novo, porque se você não fizer, nenhum homem o fará, como Sabrina (O Mundo Sombrio de Sabrina);
É ser subestimada e idealizada, como Wanda (Wandavision);
É ser julgada pela aparência e pelo homem que a acompanha, como Simone (Por que as mulheres matam);
É ser assediada e menosprezada no trabalho, como Tully (Melhores Amigas para Sempre);
E, claro, ser a única ou principal encarregada da criação dos filhos, como Kate (Melhores Amigas para Sempre).
Mas Kássia, a maioria dessas personagens superou esses obstáculos. Sim, superaram. Tiveram que colocar um grande esforço e energia para superar situações que nem deveriam existir. Assim como nós.
Mulheres reais
Vou continuar a matéria de forma triste, mas necessária. Afinal, é sobre isso que deveríamos estar discutindo neste 8 de Março: assédio, estupro, violência doméstica, feminicídio. Qual o valor de promoções de maquiagem quando 4 mulheres morrem no Brasil diariamente só por serem mulheres? (Levantamento do (M)Dados)
As histórias a seguir foram coletadas em parceria com a Nicole Waiszczyk, graduanda em Direito e colaboradora do @direitodelassjp. São relatos de mulheres que tiveram a coragem e, principalmente, a oportunidade de prestarem denúncias. Suas identidades não serão reveladas, para que elas se sintam seguras. Se você reconhecer alguma situação, se identificar ou conhecer alguém em situação semelhante, procure ajuda (mais informações no bloco seguinte).
“Relata a noticiante que seu companheiro não quer sair da casa e não aceita que o relacionamento chegou ao fim, ameaçando ela e seu filho menor, de 8 anos. O homem a impede de trabalhar, seguindo-a até seu local de trabalho. Em uma madrugada, chegou embriagado, como de costume, e sem motivos arremessou o seu aparelho de celular no rosto da mulher, que dormia que não teve chance de reagir e se defender.”
“Relata a vítima que após um ano de reclusão o agressor voltou pra casa, a ofendendo com palavras como ‘vou te matar’, ‘cala boca’ e ‘eu pego esse seu filho e vou estuprar ele’. O homem arremessa facas e objetos contra a vítima e seu companheiro, ameaça estuprar o enteado de 1 anos e 3 meses e se masturba em frente a vítima e a irmã, de 15 anos.”
“Relata a vítima que seu ex-companheiro a agrediu moralmente: ‘você deve morrer sozinha, já perdeu seus filhos, vai ficar sozinha’. Diariamente ele exige pagamento para realizar os afazeres da casa, como lavar louças, e, um dia, enquanto a vítima entregava bolos, ele retirou a mobília da residência, sem autorização ou conhecimento da mesma.”
“O noticiado ameaçou a vítima com os dizeres: ‘Vou comprar uma arma e matar ela”. A frase foi direcionada à mãe da vítima, também presente no local. Por fim, ele disse que iria prejudicá-la na justiça, pois ambos estão decidindo sobre a guarda do filho, de anos”
“O denunciado matou a namorada, mediante diversos golpes de faca e canivete, a biópsia localizou vinte e uma feridas. O homem e seu cúmplice ocultaram o cadáver da vítima em uma vala, localizada em um matagal próximo do ocorrido. O feminicídio foi cometido por motivo de vingança pelo término de seu relacionamento”.
Relato de vivência
“Que seu convivente a perturba ao longo do dia, proferindo frases pejorativas como 'puta', 'você só presta para isso', se referindo ao gênero da declarante, como se esta tivesse que ser submissa ao marido. Que seu cônjuge é agressivo na forma de falar, bastante autoritário. Que teme pela sua integridade física já que percebe que as injúrias estão crescentes e que ele até chegou a ameaçá-la.” Fonte: Trecho retirado de um documento policial, que contém declaração da vítima Fulana do Sobrenome Mais Uma Mulher Vítima de Violência.
Seria inverídico, se alguma mulher não reconhecesse em sua pele as palavras de Fulana, ou não encontrasse o sentimento trazido pelo relato nas bocas de outras tantas Fulanas de seu convívio. Uma conversa sobre violência doméstica e/ ou de gênero, desenrosca um fio longo, de um tecido fino e delicado que molda a roupa de inúmeras identidades espalhadas por cada esquina do país. Não citar o RG verdadeiro, não quer dizer que não haja nome e endereço, dores e medos existentes. O processo, juridicamente falando, tem um número único. Atrás da sequência numérica, uma única vida. No entanto, a história que o motivou comove uma identificação imensurável.
As expectativas acerca do que é ser “boa aluna”, “boa mãe”, “boa esposa” são limitações. Ao mesmo tempo que autorizam que sejamos algo, encurtam o que podemos ser. Agimos por dever, por definições de comportamentos e afazeres construídos socialmente, e quando, por minutos ou anos inteiros, nos desviamos destas esperanças gera-se frustração da qualidade de quem somos. Uma voz sussurra as proibições, as placas de pare e os sonhos que devem ser reprimidos. Ensinadas a perdoar, relevar e conviver, enquanto desejos reais adormecem por cansaço após longa noite de insônia.
Retornando às identificações, evidente a semelhança de mulheres que sentem submissas por uma postura autoritária que as inibe, ao passo que o sucesso profissional ou espiritual é visto como um idealismo distante. A ironia é encontrada na normalização inconsciente da pouca contentação e pelo costume da infelicidade, quando mulheres bem sucedidas não respiram em outro mundo, coabitam na realidade. Dois extremos que não precisam colidir; Fulana do Sobrenome Mais Uma Mulher Vítima de Violência ao aprender a identificar a violência que sofre, os mecanismos de defesa e reforços à saúde que poderá recorrer, junto do apoio legal e social poderá trafegar pela imagem de vítima, até chegar em um destino seguro, mesmo que isso seja visto como vulgaridade para conseguir o que quer.
O parágrafo anterior, não transmite um significado de culpabilidade à vítima, tampouco a ideia de que apenas depende de ela recuperar as rédeas de sua vida. Recuperando o enredo de “Por que as mulheres matam”, uma mulher enfraquecida agravará o seu estado, se ao suplicar por ajuda, for vista e ignorada. Em um discurso mais longo, seria possível descrever toda a construção simbólica, e após materializada, de uma cultura da repreensão, do patriarcado que faz com que vidas femininas sejam marcadas por esforços de sobrevivências, enquanto direitos mínimos a qualquer ser humano se tornam conquistas.
Poupando dígitos, e de uma forma didática impõe-se aos aproximados das ofendidas, que se reeduquem para abrigá-las, que rebaixem os preconceitos e “metam a colher”. É inválido o discurso “Aja porque poderia ser a sua irmã, sua tia”. Fulana não é da sua família, entretanto, precisa de espaço para sair de uma situação de risco e vulnerabilidade, por ser ela. O mal previsto, não precisa concretizar-se, para que a mídia noticie e que remorsos tomem cor. A empatia nasce ao não tolerar agressões físicas e psicológicas, mesmo que a vítima não seja a “sua irmã, ou tia.”, de modo que para cada crítica proposta, para cada olhar de piedade e vergonha, uma solução seja oferecida.
Desta forma, ao conhecer uma mulher em violência doméstica, pode ser indicado a ela o comparecimento em uma Delegacia Especializada, para que verifique a possibilidade de medidas cautelares que impeçam que o agressor retorne a agredi-la. Na mesma oportunidade, a recomendação de um profissional da saúde (psicólogo) que a ensine a superar o ciclo da violência para que tenha condições de encaminhar a sua vida a plenitude. Tão verdade, que denúncias auxiliam a sanar situações que ofendem a integridade de diversas mulheres (ligue 180!), entre procedimentos que os principais órgãos de violência contra mulher estão em funcionamento para instruir e auxiliar, mostrando que há teto mesmo fora de casa.
Escrevendo como uma pessoa do gênero feminino, que presenciou e estagiou em especializadas que tratam sobre o assunto em questão, despejo um pouco do que absorvi: Não basta julgar e injuriar-se, inércia e revolta guardada dentro de si, não ajudam a salvar vidas. Primeiro, a compreensão precisa vigorar, para que se entenda a melhor forma de ajudar “Como posso te ajudar?”, segundo, somente a racionalidade permite educar-se, para transmitir o que se aprendeu. Por fim, o sentimentalismo servirá para indicar que uma conversa, um convite é valioso para quem precisa de uma mão para conseguir se levantar e servir de apoio para outras, em um caminho contínuo e certo.
Por Nicole Waiszczyk.

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