Como a criação das meninas não as prepara para o mundo
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| Foto: Reprodução da série |
Um novo seriado, da produtora da Shonda Rhimes (Grey’s Anatomy, How to Get Away with Murder), me chamou atenção no catálogo da Netflix. Desde já eu peço perdão aos fãs dos livros, pois não os li e vou falar exclusivamente da série. “Bridgerton” mostra a alta sociedade de Londres, no Séc. XIX, na qual as mulheres casam-se cedo, em casamentos majoritariamente arranjados, para garantirem seu prestígio social e seu sustento. Em oito episódios looongos, acompanhamos a vida de Daphne Bridgerton, de sua extensa família e de coadjuvantes, narrada pela “Lady Whistledown”, uma mulher secreta que escreve fofocas da sociedade (Gossip girl que fala?).
Para ser sincera, a história não me agradou muito. A produtora se esforçou — os trajes e cenários são luxuosos e a fotografia da série é muito linda. O enredo, no entanto, parece mais do mesmo e o ritmo é muito lento. O que eu achei interessante na história foi a ingenuidade das moças em relação ao sexo e é sobre isso que eu vou comentar nesse artigo. A partir daqui existirão spoilers leves da história, mas nada que te impeça de assistir depois.
[A partir daqui spoilers leves]
As debutantes de aproximadamente 18 anos não podem ter contato físico algum antes do casamento (caso o façam são desgraçadas perante a sociedade). Porém, elas nem ao menos sabem o que é sexo, e desconhecem a anatomia masculina e a sua própria. Isso é evidenciado quando uma personagem engravida e nenhuma moça (incluindo a gestante) sabe como a gravidez acontece. Em outra cena, Daphne descobre o que é masturbação, mais um segredo muito bem guardado da sociedade.
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| A atriz Phoebe Dynevor é um dos pontos altos da série. Foto: Reprodução |
Por outro lado, os meninos e homens da série têm total conhecimento sobre tais questões (não é explicado como, mas imagino que seja a partir da educação formal da qual as garotas não têm direito e dos ensinamentos de outros homens da família). Isso permite que eles se aproveitem das moças, que sofrerão as consequências do ato (desonra, gravidez) enquanto eles sairão impunes. Ainda bem que a nossa realidade é muito diferente disso, não é mesmo?
Na verdade, não tão diferente assim. Sexo é tabu. É difícil de se explicar para as crianças, então é melhor deixar que elas descubram sozinhas. Ou é melhor que elas nem saibam da existência, aí elas jamais o farão! Bridgerton nos mostra que essa omissão apenas prejudica as mulheres e, em tempos em que analisa-se a remoção da educação sexual das escolas, a discussão é muito bem-vinda.
Com 8 anos, eu fui a um parquinho de diversão e fiquei conversando com um supervisor dos brinquedos, que me acompanhou ao banheiro. Nada ruim aconteceu, mas poderia. O famoso "não fale com estranhos" não me explicou a gravidade da situação. Com 10, "mijei sangue" na aula de educação física sem fazer ideia do que estava acontecendo. Aos 12, meu namoradinho da escola queria passar a mão no meu corpo, alegando que eram coisas que namorados faziam. E então, aos 13 anos, a escola me ensinou o básico, gerando mais perguntas do que respostas.
Meus pais nunca conversaram comigo sobre sexo. Tenho certeza que algum dia eles compraram camisinhas para o meu irmão e conversaram com ele sobre, mas nunca comigo. E, quando as perguntas surgiram, foi melhor perguntar ao Google do que aos pais, que se constrangiam facilmente e respondiam vagamente. Por sorte, ou azar, a minha geração pôde perguntar tudo ao Google. Muitas vezes era útil, mas os adultos sempre diziam que "não se pode confiar em tudo que se lê na internet" (e agora parece que esqueceram).
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| Edição especial da Capricho dedicada à informação sexual. Foto: Mercado Livre |
Então eu descobri a revista Capricho. Assim como outras revistas adolescentes, ela continha uma seção "S.O.S. Sexo" que respondia dúvidas de leitoras e informava a partir de um ponto de vista feminino. Minhas amigas e eu amávamos a revista — ela era a única que nos contava a verdade. E os pais nos deixavam ler, talvez por não saberem da existência da sessão, talvez dando graças que não perguntaríamos tais coisas a eles. Como a revista não existe mais em formato impresso, as novas gerações terão de se contentar com o Google.
Em Bridgerton, assim como na vida real, todas as classes sociais sofrem com a desinformação sexual, mas o problema é maior para as classes mais baixas. Para alguns adolescentes, não há internet, nem revista Capricho, e às vezes nem os pais sabem as respostas. Os ensinamentos da escola são muito pouco para impedir abusos e gravidez indesejadas, além de tratar apenas do sexo hétero. Precisamos urgentemente repensar a educação sexual, pois se ninguém de confiança ensina as crianças e adolescentes, talvez uma pessoa a ensine como bem entender. E as consequências disso você vê na nova série da Netflix.



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