Cinema enfrentará o streaming no pós-pandemia, quem vencerá?

Nós vimos as locadoras fecharem e as TVs por assinatura perderem espaço, mas não imaginamos que o streaming faria mais uma vítima: o cinema. Essa batalha não era tão visível antes da pandemia os dois ofertavam serviços diferentes. O cinema transmitia estreias e reclamávamos que o streaming tinha pouco filme novo. No entanto, a pandemia mudou as peças desse jogo e o cinema se encontrou em uma posição ameaçada.

Em uma matéria anterior sobre os conteúdos originais da Disney+, comentei que o filme “Mulan” (2020) foi lançado diretamente no streaming, após a data de estreia no cinema ser adiada várias vezes devido à pandemia. Na ocasião, não comentei que essa escolha mudou os rumos da distribuição de filmes a discussão ficou para hoje, juntamente com a análise do futuro do cinema no cenário pós-pandemia. A pergunta não é se as pessoas irão aos cinemas depois da pandemia, mas sim se os filmes chegarão às telas do cinema.

O cinema é essencial

Antes de entrar na discussão, preciso pontuar que o cinema não é apenas um serviço de consumo ele é um dos distribuidores de cultura mais populares no Brasil. Assistir a um filme é muito mais barato do que assistir a um show ou uma peça de teatro, além de estar disponível em mais localidades e todos os dias. A assinatura do streaming pode até valer mais a pena do que o valor do ingresso, mas nem por isso é mais acessível.

Assinar um serviço de streaming pressupõe que você tenha um serviço de internet, um aparato tecnológico (tv smart, notebook) e um cartão de crédito. Portanto, para muitas pessoas, o cinema é a principal forma de acesso à cultura. Além disso, os cinemas geram emprego para milhares de brasileiros e colaboram para a existência de produções audiovisuais nacionais. Assim como a TV por assinatura, ele está submetido à regulamentação da ANCINE (Agência Nacional do Cinema), o que os obriga a exibir conteúdo nacional. 

Os serviços de streaming, no entanto, não são regulamentados. O Brasil proporciona milhares de assinantes, mas isso não é revertido em empregos para brasileiros nem em produções nacionais. A própria Netflix produziu o documentário “Dilema das Redes”, problematizando empresas globais isentas de legislação. Ela só esqueceu de comentar que também está incluída nessa onda de mídias que estão acima da lei. 

A Netflix e a Prime Vídeo produziram conteúdos brasileiros, mas a quantidade ainda é desproporcional à receita gerada e o interesse é puramente comercial. Com isso, fica claro que o cinema é mais importante socialmente e economicamente para o país. Eu jamais diria que o streaming deve acabar, tenho vários posts anteriores que provam que eu sou tiete da Netflix, mas a regulamentação é necessária para que a balança funcione.


Durante a pandemia


Com a pandemia, os cinemas precisaram fechar no mundo todo. Isso afetou desde o dono do cinema do bairro até as maiores produtoras. A maior parte do lucro de um filme é a bilheteria e, sem ter como lançar os filmes, tudo parou. Mesmo com a reabertura, não tinha como lançar um filme globalmente cada país estava em uma fase da pandemia. Enquanto as salas da Califórnia e de Nova Iorque estavam fechadas, ninguém quis lançar nada (os Estados Unidos são o segundo maior consumidor de cinema no mundo, perdendo apenas para a China).

A alternativa encontrada por alguns foi estrear conteúdo direto no streaming. A Netflix tem feito isso há tempos, nenhum de seus filmes chegou até as salas. Mas esse ano vimos filmes blockbusters, feitos para o cinema, pularem a cerca. Um exemplo é “Mulher Maravilha 1984”, produzido para ser campeão de bilheteria, mas que virou campeão de pirataria, pois foi lançado na HBO MAX (que não está disponível no Brasil e em outros países) no mesmo dia em que chegou aos cinemas.

Outro exemplo é o filme Mulan, que deveria ser a salvação dos cinemas menores. Como disse anteriormente, esse filme fez história porque não chegou aos cinemas (com exceção da China) uma enorme produção da Disney passando batido. Inclusive, não tivemos grandes lançamentos em 2020. Sem blockbusters, os filmes que realmente dão lucro para as redes, a renda de foi muito fraca o tempo fechado deu prejuízo e o tempo aberto não rendeu.

Depois da pandemia

Finalmente chegamos ao ponto. O que vai ser do cinema depois da pandemia? A partir do momento em que os cinemas do mundo inteiro estejam abertos, com certeza a sétima arte terá mais um fôlego para os próximos anos. Isso não significa que os problemas acabaram, na verdade, faltam poucos movimentos para o xeque-mate.


  1. Fechamento de pequenas salas: Para começar, pequenos empresários não vão sobreviver até lá. Com zero esforço do Ministério da Cultura (que nem existe mais), a tendência é uma centralização dos cinemas nas capitais do país, em contrapartida à expansão que aconteceu nas últimas décadas.

  2. Mudança de hábito: Antes da pandemia, eu assinava Netflix. Agora, com a colaboração familiar, temos acesso à Netflix, Prime Video, Disney+ e Globoplay. As pessoas se acostumaram a ver filmes no conforto de casa. Será que eu me daria ao trabalho de me arrumar, pegar um busão e pagar 15 pila num filme que amanhã eu terei em casa? Claro que a experiência é diferente e continuará sendo um hobbie, mas não teremos aquela urgência.

  3. Falta de exclusividade: quando eu digo amanhã, é amanhã mesmo. Dois anos atrás, um filme só era vendido para o streaming cerca de 3 meses após a estreia no cinema. Hoje em dia, essa média é 14 dias. Tá difícil de ter exclusividade com as produtoras, ainda mais quando elas já estão paquerando outras formas de distribuição. 

  4. Conglomerados: As estreias em streaming foram um teste, mas provou valer a pena para os conglomerados que produzem e distribuem (algo que a regulamentação da ANCINE não deixa as produtoras brasileiras fazerem, aliás). A Netflix adquiriu alguns estúdios e agora, além dos filmes que ela compra por fora, existem também conteúdos que ela produz e possui todos os direitos de distribuição. O mesmo acontece com a Disney+, pois pertence à mesma empresa que os estúdios Disney. Por que dividir uma parte da receita com os cinemas se você pode distribuir no seu próprio canal e concentrar os lucros?

Esperança?

Não muita. Pedimos por reinvenção, assim como pedimos ao rádio, e à TV, e aos jornais, mas faltam ideias para vencer as facilidades da internet. Alternativas como drive-in são insuficientes com pouco conforto e qualidade de som ruim, ele atrai mais curiosos do que clientes fiéis. Além disso, a realização em espaços abertos é muito mais cara.

Não estou dizendo que você deve ir aos cinemas (eu mesma não vou desde "Dois Irmãos", em março do ano passado) nem que você deve cancelar a Netflix. É um problema que depende das autoridades. Uma esperança seria linhas de crédito para os cinemas, principalmente os das cidades pequenas. Ou ainda uma regulamentação (global, portanto, difícil) dos serviços de streaming. A nós, cabe apenas escolher o que queremos consumir.



A meta era incluir aqui o quanto a produção de filmes mudou com a pandemia (equipe de máscara, testes de covid-19 todo dia, roteiros sem beijo...), mas já me estendi demais. Então semana que vem eu trago um parte 2 sobre esse assunto. Obrigada a todos que leram até aqui!

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