Documentário "Cercados" e o negacionismo da pandemia

O original Globoplay mostra os bastidores da cobertura jornalística em 2020 e um Brasil no mínimo preocupante

Imagem: Divulgação Globoplay


Semana passada, quando eu trabalhei na reportagem sobre a situação da pandemia em Curitiba, demorei para encontrar as informações que queria. Em alguns casos, precisei desbravar planilhas da Secretaria Municipal de Saúde, e, depois de algumas continhas de matemática, tinha tudo em mãos. Fiquei me perguntando: se essa informação está disponível aqui e ela é relevante, por que os jornais não estão divulgando? Mais tarde na mesma semana, eu tive a minha resposta, assistindo ao documentário "Cercados". Os jornais não estão divulgando porque já divulgaram, todo dia, por 5 meses, e agora ninguém liga mais, a pandemia não dá audiência. 

Eu mesma, muitas vezes, me afastei das notícias na tentativa de permanecer alegre. Ignorar a realidade, no entanto, não a torna menos real. E a realidade apresentada no documentário é dura com mais de 180 mil mortos por covid-19 no Brasil, muitos brasileiros ainda não acreditam na existência do vírus. Como informar as pessoas sobre o coronavírus quando elas preferem acreditar em qualquer site da internet do que no jornalismo profissional? E, além do esforço enorme para informar, os jornais também precisam combater a desinformação, desmentir Fake News, e, muitas vezes, desmentir o próprio presidente.

Algumas cenas mostram o presidente difamando os jornais e dizendo que os fatos apresentados não são verdade. Foto: Reprodução do documentário

O cercadinho, que nomeia a produção, é o local em que os repórteres ficam para esperar pronunciamentos do presidente. Ao lado dos profissionais se encontram os apoiadores de Bolsonaro, que são incitados a "manifestarem-se". Quando alguém tenta fazer uma pergunta, começam as gritarias "mídia comunista", "imprensa marrom", "globo lixo" e nenhuma resposta é dada pelo presidente. E, quando não há interferências, o próprio Bolsonaro grita "perguntas desse gênero eu não vou responder!". Qualquer pergunta política é "ofensiva", talvez ele pense que os jornalistas estão lá para perguntar sua comida favorita.

Os apoiadores do presidente aglomeram-se diariamente, raramente utilizando máscara e nada é feito para removê-los do local. Foto: Reprodução do documentário

Se o cercado é humilhante, nas ruas a situação não é muito melhor. Transmissões são interrompidas constantemente e, em casos extremos, os jornalistas acabam agredidos por aqueles que acreditam que a mídia é a grande vilã. Falas como "a Globo quer que a gente pare de trabalhar" ou "esses jornalistas têm que viver o que o povo vive", mostram quão pouco essas pessoas sabem sobre a profissão. O que os veículos ganhariam com isso? Última vez que eu chequei, população sem renda não paga notícia. E quanto a viver o que o povo vive, o salário médio de um jornalista no Brasil é R$2.041,00 (Catho, 2020). O próprio documentário mostra que os maiores jornais do país Folha de S. Paulo, TV Globo tiveram que cortar salários na pandemia.

Lançado em dezembro desse ano, Cercados imerge na cobertura da pandemia, unindo filmagens de diferentes cidades e jornais. Entre as cenas mais impressionantes, estão as da jornalista Danielle Zampollo, do Profissão Repórter, que acompanhou a porta do Hospital Tide Setúbal, em São Paulo, por mais de 40 dias. A montagem cumpriu suas funções: ordenou os acontecimentos de 2020, analisou a sociedade brasileira na pandemia, retratou o dia a dia dos jornais e gerou empatia pelos jornalistas. Para comunicadores, o documentário é obrigatório e, para quem não é da área, é uma aula sobre a pandemia no Brasil.

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