Terreiro curitibano sofre incêndio criminoso e ressurge das cinzas pela fé

 O Terreiro das Marias foi vítima de um incêndio criminoso em agosto e reabriu em setembro

Reportagem postada no dia 27/10/2019 no Jornal Comunicação - UFPR.

Imagem do Terreiro das Marias após o incêndio. Os estragos foram enormes, mas ninguém se machucou. Foto: Facebook do Terreiro

“Quando cheguei ao terreiro, os bombeiros ainda estavam apagando o fogo, parecia que aquilo não era verdade”, conta Cláudia Gonzales, fundadora e dirigente do Terreiro das Marias. No dia 01 de agosto, o incêndio no Terreiro das Marias assustou toda a comunidade da Umbanda em Curitiba. Na mesma semana, a polícia identificou que realmente se tratava de um incêndio criminoso. Mais de dois meses depois, a polícia ainda busca os culpados pelo crime.

Essa violência, porém, gerou uma corrente de amor e apoio. “Recebemos ajuda moral e financeira dos participantes, de outros terreiros de Umbanda, de lojas de artigos religiosos, de políticos, da polícia e dos meios de comunicação”, afirma a Mãe de Santo. Ela conta que pensou que seria o fim do terreiro, e percebeu que estava muito enganada. No dia seguinte ao incêndio, um grupo de voluntários foi ao local remover os destroços e iniciar a limpeza. Várias ações foram feitas para arrecadar dinheiro para a reconstrução: vaquinha virtual, rifas e venda de feijoada. As pessoas também ofereceram materiais e mão de obra. “O Terreiro foi reconstruído em 45 dias, foi tudo feito de novo e também ampliamos.”, afirma Cláudia.

A reinauguração aconteceu no dia 16 de setembro e teve a presença de aproximadamente 400 pessoas. Vários terreiros de Umbanda de Curitiba foram prestigiar o evento, que teve a participação especial do Tambores do Paraná, um grupo de músicos dedicado às canções das religiões de origem africana. O objetivo agora é continuar os atendimentos, as ações do terreiro e lutar contra a intolerância,


“Depois de tudo que aconteceu, tenho a certeza em meu coração que quando praticamos somente o bem, damos amor, respeitamos a todos e tentamos ajudar ao próximo, ninguém e nada pode nos destruir.”


Reinauguração do terreiro das marias e festa de Camarinha da Mãe Cláudia de Oxum. Foto por Kássia Calonassi.


Ações do terreiro


"A mensagem que tenho a passar é o amor ao próximo, para que as pessoas se permitam conhecer nossa religião antes de julgar", diz Cleverson Gayer, dirigente espiritual do terreiro. Macumba é o nome de um instrumento musical de origem africana, motivo pelo qual a palavra foi atrelada às religiões de mesma origem. A palavra também significa rituais e cultos que praticam a magia negra, o que, segundo matéria da Veja, gera a associação entre a religião e a maldade. A Umbanda, porém, prega a fé e o amor — os terreiros não possuem fins lucrativos e atendem a qualquer pessoa que os procurem, sem distinção.

Aos domingos, voluntários fazem o “Sopão das Marias” para pessoas em situação de rua, na região do Mercado Municipal. Ao longo do ano, arrecadam cobertores e roupas, que também são distribuídos para essas pessoas e para a comunidade carente Portelinha, no bairro Santa Quitéria, próxima ao Terreiro. Para essa comunidade são distribuídas cestas básicas e mão de obra em momentos necessários, por exemplo, quando há alagamentos por causa da chuva. Além disso, realizam eventos solidários em instituições que atendem crianças e idosos em datas especiais, como Natal, Páscoa e Dia das Crianças.


Intolerância religiosa


“Devo confessar que nem sempre digo que sou umbandista, justamente por achar que estou me protegendo de possíveis casos de preconceito e intolerância.”, conta Camila Chueire, mestre em história e pesquisadora das religiões afro-brasileiras. Viver com medo é a realidade de muitos umbandistas. A professora aponta o preconceito racial e o aumento do fundamentalismo religioso de alguns segmentos das Igrejas Neopentecostais como os principais fatores da intolerância.

Ela frisa que esse preconceito não é exclusivo da Umbanda, nem do Brasil, e sim um fenômeno global. O que acentua a violência contra esses grupos no país é a falta de ensino nas escolas sobre as religiões de matriz africana e discussões sobre o racismo na nossa sociedade: “A principal medida que pode ser tomada é o investimento em uma educação que promova a cultura da diversidade e do respeito.” Boa parte da cultura brasileira provém das religiosidades afro-brasileiras: ritmos musicais, danças, músicas populares e até costumes. Mesmo assim, há uma resistência de parte da população em reconhecer essa influência.

“Precisamos envolver todos na luta: a educação escolar, a Academia, o Estado, a mídia e a comunidade”, afirma Camila. Há muita luta pela frente, mas algumas medidas já foram tomadas. A lei n°10.639/03, por exemplo, instituiu a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas, o que infelizmente não é feito de forma efetiva. 

A violência está longe de acabar e um exemplo disso foi o acontecido durante a passeata contra a Intolerância Religiosa, realizada em Curitiba no dia 15 de setembro. Um homem foi preso pela tentativa de esfaquear um dos manifestantes e, além disso, um grupo de pessoas vestidas de preto protestaram contra a liberdade religiosa e a favor da intolerância. “Gostaria que as pessoas se conscientizassem que, independente de qual a crença seguem, o respeito à diversidade deve ser o mais importante. E não digo isso somente com relação ao respeito às religiões.”, afirma Camila. 


Como denunciar?


O que fazer ao presenciar um ato de intolerância? Pode-se denunciar no Disque 100, que é o canal de denúncia de violações de direitos humanos do Ministério dos Direitos Humanos, anonimamente ou não. Outra opção é denunciar no Departamento de homicídio e proteção à pessoa (DHPP) ou ainda envolver a polícia diretamente. Camila destaca que, além de denunciar, organizar ações coordenadas da comunidade e divulgar o crime na mídia também são ferramentas eficazes. “Todos devem se sentir seguros. Ter os direitos respeitados deve ser sempre a nossa prioridade enquanto seres humanos.”, conclui Camila.



A Passeata começou na Praça Tiradentes e terminou na Câmara Municipal. A tentativa de esfaqueamento aconteceu nos momentos finais. Foto por Kássia Calonassi.


Como ajudar o Terreiro das Marias?

Apesar de todo o avanço, ainda há muito a ser feito. Para ajudar o Terreiro das Marias, a contribuição é feita diretamente no local (Rua Professor Ulisses Vieira, 1450- Vila Izabel).


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