Parques curitibanos são o palco da Dança Circular

 A prática integrativa do SUS tem conquistado espaço na capital e traz muitos benefícios saúde

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No início da roda do dia 19 de outubro, havia 11 participantes, que já conheciam o projeto. Ao final, eram 20, pois pessoas que passavam pelo Parque Barigui entraram na dança. Foto: Kássia Calonassi.


Uma música muito tranquila e uma voz calma. Assim começam as rodas de dança circular.  “Fada” é o apelido que circula para as focalizadoras e a sensação é que realmente há algo mágico acontecendo.  Em uma roda realizada no Parque Barigui, no dia 19 de outubro, uma pomba branca cruzou o coreto em meio à dança. “A alma, o coração, tudo fica mais leve”, diz Maria de Fátima Degasperi, que participava da roda. 

O que são focalizadores? O focalizador ou focalizadora é a pessoa que guia uma roda. Ela cria um foco de atenção, ou seja, os participantes devem olhar para ela e imitar seus passos. A maioria dos focalizadores possui curso de dança circular e uma parte deles são coreógrafos.

Formando um círculo, as pessoas aguardam instruções do focalizador. Na maioria das vezes, os passos são explicados na hora, antes da música tocar. Nas aulas de dança circular e em rodas mais experientes, geralmente já se sabe a coreografia. A dança acontece em volta de um centro composto de vários elementos (flores, enfeites, velas) que associam-se ao significado da música escolhida e da coreografia. Os ritmos são os mais diversos: desde melodias nórdicas eruditas até músicas populares brasileiras. 

Além de ser um exercício físico e mental, pois envolve foco e memorização, a atividade é meditativa. Em 2018, o SUS reconheceu a dança circular como uma prática integrativa e terapia alternativa. “É mais que dar as mãos e dançar, ela te conecta ao Céu e à Terra”, diz Rosana Santos, professora de dança circular.

O projeto Danças no Parque, idealizado por Adriana Bisconsin, reúne doze focalizadoras voluntárias que, uma em cada mês, fazem rodas gratuitas no Parque Barigui. Os encontros são no segundo sábado do mês, às 10h. O primeiro parque a receber a dança em Curitiba, há mais de 10 anos, por outro projeto de Adriana, foi justamente o primeiro parque curitibano — o Passeio Público. 

Na Praça Oswaldo Cruz, Conchita Miranda, voluntária da prefeitura, dá aula gratuita de dança circular. A turma é para alunos acima de 18 anos e as aulas acontecem nas segundas e quartas-feiras das 14h às 15h30min. “A gente dá aula gratuita e no final vê aquele brilho nos olhos das pessoas. É o melhor presente”, diz Conchita. 

O Parque São Lourenço, por sua vez, possui uma roda mensal de dança circular. Essa é idealizada pelo Centro de Criatividade de Curitiba e a focalizadora voluntária é a Ana Paula Cervillini. Os encontros acontecem no último domingo do mês, das 10h às 11h.



Acessibilidade

Frente à pergunta “Para quem você recomenda a dança circular? ”, Adriana Bisconsin, fundadora da escola de danças Giraflor e Dulcileia Secco, professora de educação física, têm a mesma resposta: “Para todos”. Em contraste a outras danças, a dança circular não exige uma capacidade física elevada ou conhecimento prévio dos passos: “Acho que o grande potencial dela está aí. As pessoas quando entram na roda, elas sentem que podem, elas se sentem acolhidas. ”, afirma Dulcileia. 

Conchita Miranda, professora de dança da Praça Oswaldo Cruz, conheceu a dança após a aposentadoria. Ela explica a importância da dança para pessoas aposentadas: “A pessoa de idade, depois que ela se aposenta, às vezes se sente inútil, não serve mais para nada, se sente deslocada no mundo. Ela entra na roda e vê que tem outras pessoas como ela.”. Enair Peruci Godoy encontrou na dança paz espiritual após a aposentadoria: "Essa meditação que a gente faz fica a semana inteira.".

Em Brasília, há um projeto de dança circular para deficientes visuais, promovido por Tereza Ouro. Segundo reportagem do Correio Braziliense, o projeto funciona há dois anos e acontece na Biblioteca Braille, em Taguatinga, duas vezes na semana. Aqui em Curitiba, o Curso de Terapias Integrativas e Complementares em Saúde, promovido pela Kiraz Brasil, recebeu uma cadeirante pela primeira vez. Rosana Santos foi a responsável por coreografar as danças: “A minha proposta foi a de buscar a autonomia dela, permitindo que ela se movimentasse sozinha com a sua cadeira. Pouquíssimos movimentos necessitaram que alguém a conduzisse. ”. 


Dança Circular nas escolas

Dulcileia Secco, professora de educação física da rede estadual e também focalizadora do projeto Danças no Parque, fez uma pesquisa com uma turma de Ensino Fundamental, quando dava aula no Colégio Estadual Marechal Cândido Rondon, no bairro Fazendinha. “Eram apenas alunos reprovados ou expulsos de outros colégios”, conta. Uma vez na semana, ela reunia os alunos para trabalhar a dança. A professora emociona-se ao lembrar o engajamento dos alunos: “O Bruno foi expulso de dois colégios, ele estudava de manhã e foi transferido para a tarde para não reprovar. Foi o aluno que mais me ajudou. Eu tinha que tirar todas as carteiras da sala e ele me ajudava”. 

A dança circular faz parte do currículo da disciplina de educação física da rede estadual. Segundo Dulcileia, porém, esse conteúdo raramente é passado aos alunos. Atualmente, ela faz rodas com alunos e com mães no Colégio da Polícia Militar do Paraná, onde dá aula, e no Colégio Marista, a convite da escola. “A dança move você, você começa a se autoconhecer e vê que existe muito mais do que você imagina dentro de você. Ela só faz desabrochar o que você tem. ”, afirma.

Dulcileia lamenta que a prática ainda seja elitizada: “É preciso ter tempo para dedicar-se a dança”. A popularização recente da dança, tendo em vista o aumento de cursos de formação e rodas gratuitas, dá esperança à professora: “Uns anos atrás eram poucos locais que ofertavam a dança circular e não era um preço popular. Hoje o cenário é diferente”. 



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