Empreendedorismo feminino: A marca dos brechós curitibanos

 Más experiências no mercado de trabalho motivaram curitibanas a abrir negócios e criar seu próprio espaço

Escrita em 26/09/2019, para o blog Filhos da Pauta. Reedição em 2020.


“Um ambiente em que só tem homem e as mulheres não podem se sentir à vontade”. Essa é a descrição de mercado de trabalho para Amanda Túlio, idealizadora e organizadora do Bazar das Manas, maior evento de empreendedorismo feminino de Curitiba. Em outro lugar da cidade, Amanda Nascimento teve uma ideia parecida: montou um espaço colaborativo para mulheres empreendedoras, o Xerimbabo – palavra do tupi que significa “coisa muito querida”. Nesse ambiente acolheu-se Ana Paula Gussela, uma mulher que, por ser subestimada e assediada nas empresas em que trabalhou, tornou-se autônoma. Criou o brechó Bem de Bowie e a partir disso montou o Garimpagem, evento que reúne brechós curitibanos liderados por mulheres e preza pela colaboração, e não a concorrência.

Um bazar só de mulheres

Amanda Tulio trabalhava como designer gráfica em uma agência publicitária, onde sofria assédio verbal e seu trabalho era constantemente desvalorizado. Paralelamente, ela administrava uma comunidade no Facebook de mulheres que trocavam roupas e acessórios que não usavam mais, e decidiu marcar um encontro para fazerem essas trocas pessoalmente.

Essas mulheres começaram a criar suas próprias marcas de brechó e precisam de eventos para aumentar as vendas. E foi por isso que Amanda criou o Bazar das Manas, uma oportunidade feita por mulheres para mulheres. Hoje em dia, esse evento reúne empreendedoras de todos os segmentos e já realizou treze edições presenciais em dois anos de existência. Em 2020, devido à pandemia o evento foi realizado de forma online.

Amanda Túlio na galeria gastrônomica Vila Urbana, que já hospedou uma edição do Bazar das Manas. Foto por Kássia Calonassi.


Coletivo de brechós

Antes de empreender, Amanda Nascimento trabalhava com gestão de recursos humanos: “São coisas muito chatas a que a gente tem que se sujeitar para conseguir um emprego.”, justifica. Cansada da atividade, montou o Frodo Brechó. A ideia de transformar a loja em um espaço colaborativo surgiu da necessidade: “É muito difícil para um brechó se manter sozinho, então porque não unir mulheres que trabalham com a mesma coisa em um único espaço? ”, arriscou Amanda. 

Com a ajuda de uma amiga, abriu o espaço Xerimbabo, onde as mulheres dividem as contas e o trabalho. A loja une brechós, como o Frodo, com marcas autorais. São cerca de dez colaboradoras, mas é comum pessoas saírem e entrarem novas. Essas empreendedoras alugam espaços na loja, podendo ter um espaço físico sem arcar com tantas despesas. Esse valor ajuda Amanda a pagar as contas do Xerimbabo, que se localiza na Rua São Francisco, 113, no Largo da Ordem. 

A história de Ana Paula Gussela é parecida. “Eu sempre trabalhei no comércio, comecei como caixa, aí fui para vendas, cobrança, telemarkerting... Um dia eu saturei e comecei a vender meus desapegos pela internet”, relembra a moça. As pessoas começaram a perguntar se ela possuía determinados produtos e ela começou a garimpar pelo o que era pedido. “Eu acho mais gostoso assim, não tem aquela pressão de trabalhar em comércio, aquela cobrança ou meta de vendas. ”, explica.

Antes de se unir ao Xerimbabo, Ana Paula vendia suas roupas principalmente em eventos de bazar, não focados especificamente em brechós. Ao sentir falta de um evento exclusivo para a área e com um custo do espaço viável, a empreendedora, que participava de um grupo de WhatsApp para donas de brechó, convidou as colegas do ramo a montarem seu próprio evento.

As mulheres aceitaram o desafio e criaram o evento Garimpagem, no qual o espaço custa 50 reais. O baixo custo só é viável porque as expositoras também ajudam a organizar o evento: “Todo mundo divide as taxas, todo mundo ajuda, põe a mão na massa, cola cartaz”, afirma Ana Paula. O primeiro Garimpagem aconteceu em 2018 e desde então teve cinco edições.

Ana Paula Gussela (à direita) encontrou em Amanda Nascimento (à esquerda) apoio para seu negócio e para a organização do Garimpagem. Foto por Kássia Calonassi.


Outras empreendedoras curitibanas

A capital paranaense abriga muitas histórias como essas e existem brechós em todos os bairros da cidade. Comprar roupas e acessórios em brechós é uma maneira de economizar, colaborar para o consumo sustentável e nesse caso, incentivar o empreendedorismo feminino. Aproveito esse espaço para divulgar mais dois brechós que descobri em minhas andanças para escrever essa matéria.

Lia Perini é uma bióloga que sempre gostou do nicho dos brechós, mas queria abrir um negócio diferente. Sua loja é um espaço colaborativo, dividido entre várias parceiras que têm marcas autorais. O local também atrai o público por sua decoração retrô: “Eu sempre gostei de coisa antiga, o rádio do meu avô, a máquina de costura da minha avó. Isso  remete a minha infância, me traz aconchego e eu acho que os clientes têm essa sensação também.”. Antes do Balaio de Gato, trabalhou com organização de eventos e em organizações corporativas. Sobre o trabalho em corporativas, Lia diz: "Sofria assédio moral e não era valorizada. Eu ganhava menos do que um homem na mesma função e ele era mais incompetente (risos)".

Endereço: Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 450 – Loja 06 – Centro, Curitiba.


Lia Perini acredita fortemente no apoio feminino. Foto por Kássia Calonassi.

Maria Vitória, de 21 anos, fez intercâmbio no Canadá, aos 17 anos, e lá teve vários contatos com as lojas brechós. Pesquisou sobre a proposta de comércio sustentável e decidiu abrir um negócio na área quando voltasse a Curitiba. Junto com a mãe, gerencia o Maria Brechó há três anos, em dois endereços. Antes de abrir seu próprio negócio, trabalhou em empresas de marketing. "Ambiente hostil, sem respeito", diz Maria.

Endereço: Rua Dr. Manoel Pedro, 132 – Loja 4 – Cabral.

Rua Camões, 527 – Loja 02 – Alto da XV, Curitiba.


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Maria Vitória viu decorações de folhas e de cactos no exterior e trouxe para seu brechó antes de virar moda no Brasil. Foto por: Kássia Calonassi.   


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