Pautas esquecidas no meu bloco de notas

Se você for como eu, talvez tenha a péssima mania de fazer listas no bloco de notas do celular. Não que fazer listas seja algo péssimo. O problema é que, no meu caso, elas ficam lá para nunca mais serem vistas.

Ideias de presentes, filmes que quero assistir, artistas que preciso pesquisar, isso sem contar os milhões de versos que eu achei que dariam um ótimo refrão mas as canções nunca foram escritas... E, após anunciar o meu retorno para este blog, respirei tranquila sabendo que eu tinha várias ideias de texto anotadas em uma listinha dessas.

Bom, não estou mais tão tranquila. Abri a listinha para encontrar várias ideias de uma outra eu. Fiz essa lista no começo do ano passado, e nela tinha pautas como "coisas que eu observei convivendo com influencers". De fato era uma época em que eu convivia bastante com influencer mas, seja lá o que eu possa ter aprendido com eles, não lembro mais. Com exceção, talvez, de uma coisa: não sou um deles.

Outra pauta também destacava "o que eu aprendi sendo solteira por dois anos". Esse é um conteúdo que eu gostaria de ter escrito, quem sabe teria o mesmo sucesso dos vídeos de "retrospectiva amorosa" que o meu close friends sempre amou. Mas a Kássia de agora está prestes a comemorar um ano de namoro e, por mais orgulhosa que eu seja da minha independência, o timing do conteúdo já era.

Um terceiro item dizia "o que eu realmente achei do Lollapalooza 25". Esse provavelmente veio da minha frustração de ter coberto o festival — mas sem a minha opinião, que não era bem-vinda no portal onde eu trabalhava.


Voltei a estaca zero. E, precisamente por isso, decidi escrever sobre esse comportamento de deixar coisas para depois. Ideias esquecidas em um aplicativo de celular, assim como textos que, um dia, ficaram esquecidos nos fundos de gavetas. 

Eu não quero viver assim. Não quero listas. 

Isso me lembra, de imediato, o poema Paredes Brancas que eu escrevi em 2017, quando ainda estava na escola. Aproveito o impulso para tirar ele da gaveta:

Paredes Brancas

Sussurros, silêncio, cansaço,

Paredes brancas, cronogramas,

Lista do que fazer, lista do que já foi feito

Culpa por não fazer nada

Apesar de nada parecer tudo

E eis um jogo no qual não se pode vencer.


Gritos, desespero, quebra

Perde-se o fôlego, sente-se tudo

Lista do que não fazer, mantenha a calma

Culpa por ter insistido

Apenas para não ceder, 

E eis um jogo que não pode vencer.


Você foi derrotado, mas os seus oponentes também

E de alguma forma você sabe que vocês não são diferentes

Eles estão tristes e sentem-se sozinhos

Apesar de nunca demonstrarem tristeza e nunca estarem sós.


Nesse jogo no qual ninguém ganha

Não há objetivo e as regras não se aplicam

Todos perdem dia após dia.


E eu me pergunto quando foi que passamos a sentir tanta angústia

E se algum dia finalmente seremos vitoriosos.


Kássia Calonassi, 2018

Nada parece tudo. Quantas coisas vamos nos propor a fazer até ser suficiente? 

Como uma pessoa criativa, percebi que só preciso de uma coisa para ter ideias: uma mente vazia. Metade das minhas músicas eu compus passeando com o meu cachorro ou dirigindo. Esse texto também chegou até mim em um passeio com o Ben, junto a outras pautas que iniciaram uma nova lista.

Mas quantas vezes, de fato, nos permitimos ficar com a mente livre? A minha resposta é "não muitas". Eu vivo no 220 volts e coleciono os famosos "vamos marcar qualquer dia", "um dia eu assisto", "um dia eu escuto", "um dia eu escrevo"...

Quantas coisas deixamos de viver. Quantas pessoas deixamos de ser. No fim, não há nada errado em deixar antigas ideias onde elas pertencem: no passado. 

Mas e o presente? Em qual lista ele ficou esquecido?

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